28 junho 2008

Quero chegar


Decidi virar a noite, comer chocolate na hora que me der na telha, tomar banho de chuva sem medo de gripe, lavar o cabelo de madrugada e sair com pessoas legais aleatoriamente, só pra conversar.
Não vou mais planejar mil coisas - para depois me frustrar quando mil e uma dão errado.
Decidi mudar de idéia, mesmo quando parecer absurdo.
Vou olhar para outros lados, pensar em coisas antes impensáveis.
Vou ler um pouco sobre tudo, ouvir o que me disserem que é bom.
Não vou discutir com minha mãe, se ela der sermão, sei que estou certa. XD
Vou manter a calma, contar até 10, até 1000 se for preciso.
Vou falar menos. Comer menos - exceto chocolate. ;D

Vou sair sem rumo, pegar um ônibus desconhecido, ir ao fim da linha, puxar assunto com um estranho...

Vou viver como uma personagem inconsequente, mas sempre terei minhas responsabilidades em mente.

Vou arriscar, e se perder, vou continuar.

Não vou mais fingir estar feliz quando não estiver, vou me isolar, pois sei que as pessoas não têm culpa do meu mau-humor - e na verdade, queria que todos agissem assim.

Quero seguir, sem olhar pra trás. Quero voar pra bem longe, ir aonde nunca pensei que iria.

E quero apenas chegar... Em algum lugar que me faça bem.

26 junho 2008

Ela e o Gato. Ela e ela só.


A janela do quarto estava fechada. A noite estava quente, insuportavelmente abafada. Todos na casa dormiam, até mesmo o gato Oliver, esparramado sobre seus pés.

Na cadeira, alguns livros jogados, matérias para estudar, mas a preguiça simplesmente não permitia. E quem era ela para desafiar as coisas que não entendia?


Ela se sentia alguém no mundo. Alguém por quem as pessoas passam, e só passam. Nada mais.


Ela amou algum dia. Será mesmo que sabia o que era aquilo que todos chamavam de Amor? Acreditava que sim, mas a dúvida sempre vinha em seguida, ao fim de mais uma relação perfeita.


Observava casais felizes, via fotos e muitos filmes. Seu coração se enchia de ilusão; talvez possa ser assim... Com alguns.

E a realidade lhe batia à porta, mostrando que ela era apenas alguém no mundo, alguém por quem as pessoas passam, e só. Ela não era especial, não era a escolhida de ninguém.


Enquanto ela refletia sobre sua vida medíocre (e ela adorava usar esse adjetivo), Oliver - o gato - se remexia e mudava de posição. Realmente estava quente, o ventilador liberava um ar morno, e a sensação de que se encontrava em um fim de mundo ficava cada vez maior.

Abrir a janela.

Antes, retirar Oliver - o companheiro - de seu cantinho preferido. Mas ele levanta por si só, se alonga, se espreguiça, e a segue. Ele é o único que nunca a abandona - não até então, pelo menos.

Com a janela aberta está melhor, mas ela adoraria já ter acabado de digitar seus textos e estar na cama, limpa, lendo alguma obra do King. Mas não acabou: paciência.


Respira fundo. Em frente ao computador mais uma vez, se perde por alguns instantes em seus devaneios, retorna, relê as últimas linhas, digita algumas palavras e se perde novamente.

Oliver - o carente - pula em seu colo, se aconchega por ali e adormece.


Vamos lá. Você consegue. Não, não consegue. Resolve tomar um banho, o calor não permite que ela se concentre. Retira Oliver - o amante - do colo, e caminha para o chuveiro. Vai largando as roupas pelo caminho, não há ninguém para espiar, não há ninguém de modo algum. Liga a ducha e vai se renovando aos poucos. Decide lavar os cabelos, demorar-se um pouco mais. Lembranças vão surgindo aleatoriamente, não consegue evitar. Verifica se Oliver está por perto, mas não, ele não demonstra ter interesse em vê-la tomando banho. Melhor assim. Ela certamente ficaria desconfortável em saber-se analisada por outros olhos, que não os dela mesmo. Massageia as madeixas vagarosamente, com o chuveiro desligado, e esquece que tem coisas a fazer quando sair dali. Viaja em pensamentos que jamais seriam reais, e se dá conta que é mesmo assim. A vida tomou um rumo que ela não pôde prever. As pessoas passaram por sua vida rápido demais, e algumas deixaram marcas profundas. Mas apenas ela notava a existência dessas cicatrizes do passado. Os causadores das marcas sequer recordavam desse alguém. E nada seria feito a respeito.

Banho terminado, roupa limpa, cama e livro do Stephen King? Errado.

De volta ao computador.

Precisava produzir algo, no mínimo, aceitável. De boa qualidade já seria pedir demais.

Oliver de volta. Prepara-se para voltar ao colo dela, mas ela o coloca na poltrona no instante exato do pulo. Ele não está necessariamente limpo, ela não está necessariamente disposta a fazer carinhos. Precisava, meu Deus como ela precisava, terminar de produzir aquele artigo.


Finalmente, escreveu algo razoável. Correu para a cama, mas não aguentou ler sequer uma linha de King, adormeceu quase que instantaneamente. Oliver ao seu lado, e ela nem notou.


Ele era o único a dividir a casa com ela. Ela era a única a dar atenção a ele. Mas um dia ele iria embora, e não por vontade própria.

E ela ficará sozinha. Continuará a ser alguém que passa pela vida das pessoas. E só.