26 junho 2008

Ela e o Gato. Ela e ela só.


A janela do quarto estava fechada. A noite estava quente, insuportavelmente abafada. Todos na casa dormiam, até mesmo o gato Oliver, esparramado sobre seus pés.

Na cadeira, alguns livros jogados, matérias para estudar, mas a preguiça simplesmente não permitia. E quem era ela para desafiar as coisas que não entendia?


Ela se sentia alguém no mundo. Alguém por quem as pessoas passam, e só passam. Nada mais.


Ela amou algum dia. Será mesmo que sabia o que era aquilo que todos chamavam de Amor? Acreditava que sim, mas a dúvida sempre vinha em seguida, ao fim de mais uma relação perfeita.


Observava casais felizes, via fotos e muitos filmes. Seu coração se enchia de ilusão; talvez possa ser assim... Com alguns.

E a realidade lhe batia à porta, mostrando que ela era apenas alguém no mundo, alguém por quem as pessoas passam, e só. Ela não era especial, não era a escolhida de ninguém.


Enquanto ela refletia sobre sua vida medíocre (e ela adorava usar esse adjetivo), Oliver - o gato - se remexia e mudava de posição. Realmente estava quente, o ventilador liberava um ar morno, e a sensação de que se encontrava em um fim de mundo ficava cada vez maior.

Abrir a janela.

Antes, retirar Oliver - o companheiro - de seu cantinho preferido. Mas ele levanta por si só, se alonga, se espreguiça, e a segue. Ele é o único que nunca a abandona - não até então, pelo menos.

Com a janela aberta está melhor, mas ela adoraria já ter acabado de digitar seus textos e estar na cama, limpa, lendo alguma obra do King. Mas não acabou: paciência.


Respira fundo. Em frente ao computador mais uma vez, se perde por alguns instantes em seus devaneios, retorna, relê as últimas linhas, digita algumas palavras e se perde novamente.

Oliver - o carente - pula em seu colo, se aconchega por ali e adormece.


Vamos lá. Você consegue. Não, não consegue. Resolve tomar um banho, o calor não permite que ela se concentre. Retira Oliver - o amante - do colo, e caminha para o chuveiro. Vai largando as roupas pelo caminho, não há ninguém para espiar, não há ninguém de modo algum. Liga a ducha e vai se renovando aos poucos. Decide lavar os cabelos, demorar-se um pouco mais. Lembranças vão surgindo aleatoriamente, não consegue evitar. Verifica se Oliver está por perto, mas não, ele não demonstra ter interesse em vê-la tomando banho. Melhor assim. Ela certamente ficaria desconfortável em saber-se analisada por outros olhos, que não os dela mesmo. Massageia as madeixas vagarosamente, com o chuveiro desligado, e esquece que tem coisas a fazer quando sair dali. Viaja em pensamentos que jamais seriam reais, e se dá conta que é mesmo assim. A vida tomou um rumo que ela não pôde prever. As pessoas passaram por sua vida rápido demais, e algumas deixaram marcas profundas. Mas apenas ela notava a existência dessas cicatrizes do passado. Os causadores das marcas sequer recordavam desse alguém. E nada seria feito a respeito.

Banho terminado, roupa limpa, cama e livro do Stephen King? Errado.

De volta ao computador.

Precisava produzir algo, no mínimo, aceitável. De boa qualidade já seria pedir demais.

Oliver de volta. Prepara-se para voltar ao colo dela, mas ela o coloca na poltrona no instante exato do pulo. Ele não está necessariamente limpo, ela não está necessariamente disposta a fazer carinhos. Precisava, meu Deus como ela precisava, terminar de produzir aquele artigo.


Finalmente, escreveu algo razoável. Correu para a cama, mas não aguentou ler sequer uma linha de King, adormeceu quase que instantaneamente. Oliver ao seu lado, e ela nem notou.


Ele era o único a dividir a casa com ela. Ela era a única a dar atenção a ele. Mas um dia ele iria embora, e não por vontade própria.

E ela ficará sozinha. Continuará a ser alguém que passa pela vida das pessoas. E só.


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