24 agosto 2008

Aquele não era um dia comum...


Era pra ser mais um dia, como todos os anteriores.
Era pra ele voltar pra casa, como de costume, assim que a aula acabasse.
Mas ele sentiu que aquele dia poderia ser diferente, ao vê-la no corredor, sorrindo, acenando, e pedindo para ele esperar.
Por um momento hesitou, olhou para trás, poderia ser para outra pessoa aquele aceno. Mas não era. Puxa vida, não era!
Ela correu na direção dele e tocou em seu ombro ao chegar, ainda um pouco ofegante.
'Quero falar com você ainda hoje, por favor, me espere no refeitório assim que a aula terminar, pode ser?'

A aula parecia infinita, como nunca fora. O relógio se arrastava, e ele não conseguia se conter. Mal o professor disse que continuaria na próxima semana, ele já tinha guardado o material e se colocava de pé. Todos o olhavam curiosos, ele sempre era o último a sair, calmo, muitas vezes conversava com o professor após o término das aulas. Naquele dia a conversa seria com outra pessoa, bem mais interessante.

Andou apressado para o refeitório. Não a viu lá. Melhor assim, não fazê-la esperar.
Escolheu a mesa perto da parede, discreta. Viu que ainda faltavam cinco minutos para a aula terminar oficialmente, então ela não estava atrasada.
Lembrou-se que não havia passado no banheiro, não tinha conferido o cabelo, talvez fosse melhor ir logo.
Mal pensou em levantar, ele a viu caminhando na direção do refeitório, olhando atenta para todos os lados. Ele acenou, ela sorriu.
Sentou na cadeira, deu uma leve tossida, ajeitou uma mexa que caia aos olhos - aquilo lhe deixava ainda mais charmosa. Olhou-o nos olhos, estava incerta.
Ele, ansioso. O quê ela teria a dizer?
A angústia da espera o estava machucando como marteladas no dedo.

Fale, pelo amor de Deus, fale alguma coisa.
Eu preciso ouvir sua voz.

'Eu marquei esse encontro por impulso, me desculpe. Não sei o que me deu, me desculpe, de verdade. Preciso ir agora, não sei o que estou fazendo aqui... Eu..."

Ele a interrompeu. Tocou na mão dela e a apertou. Imediatamente ela se calou, ansiosa por algumas palavras que a salvassem, que dessem sentido àquela vida tão mecânica.

"Escute... Não precisa dizer nada. Eu sei. Você tem suas incertezas, eu compreendo. Mas hoje as esqueça. Quero te mostrar uma coisa, venha comigo."

Os dois se levantaram, e seguiram em direção à saída do prédio. As mãos dos dois se encostavam, mas nenhum tinha coragem de segurar.
Ela estava intrigada, onde ele a estava levando?
Ele apenas caminhava, sem saber direito o que queria mostrar-lhe. Parecia tão surreal, tão instintivo. Não havia planejado, apenas caminhava.

Chegou a uma praça repleta de árvores, e avistou um banco. Finalmente pegou a mãe dela, e a levou para lá. Mão quente, macia.

Sentaram-se. Olharam-se por alguns segundos decisivos, e então ele puxou a cabeça dela e a beijou. A princípio, desajeitado. Mas os lábios se entenderam facilmente. Uma entrega mútua houve ali. Ela não hesitou um só segundo. Era aquilo que queria.

De repente, vozes se fizeram ouvir. Os dois separaram-se por impulso, desconcertados. Alunos de todos os cantos chegavam à praça. Pessoas conhecidas foram percebidas ao longe. Ela levantou-se de uma vez. 'Obrigada' - sorriso sutil. Saiu caminhando de cabeça baixa, sem olhar para trás uma vez sequer. Ele continuou sentando, confuso. O cenho franzido.

"Eu deveria correr atrás dela?"

Levantou-se e a procurou com o olhar, percebeu que ela já estava longe, corria como uma garotinha assustada.

"Essa eu não entendi..."





(Continua quando me der na telha.)


Um comentário:

JP disse...

quero muito ver a continuação.