18 janeiro 2009

Era uma vez 2


Eu disse que o post anterior teria uma continuação, mas decidi que não vou dar continuidade de um modo tão alegórico, como o estava fazendo.
Vamos direto ao ponto:
Eu tenho câncer!
E, como já mencionei anteriormente, eu sempre senti que teria.
Na verdade, eu imaginava que seria um tumor no cérebro (talvez porque eu sentisse umas pontadas repentinas, vez por outra), e não no útero - que é bem menos grave, já que ele pôde ser removido sem grandes danos.

Quando o médico se aproximou do meu leito e começou a explicar o procedimento cirúrgico ao qual fui submetida, ele hesitou um pouco antes de mencionar a quimioterapia (olhou para minha mãe e sussurrou "Ela já sabe?" - ao que minha mãe respondeu afirmativamente, ele soltou um suspiro de alívio).

"Sim, doutor, eu já tô sabendo mais ou menos..."

Muitas coisas começaram a fazer sentido pra mim. Todo aquele pressentimento me deixou preparada para algo pior. Eu sequer derramei uma lágrima, enquanto eu ouvia murmúrios e lamúrias de algumas tias, que pensavam que eu estava dormindo.

"Meu Deus... Tão nova... Nem vai poder engravidar..."

Eu não lamentei o fato de me tornar estéril. Sempre será possível adotar, não é verdade? E é muito mais bonito, em todo caso.

No período em que fiquei internada (uma semana), fiz algumas amizades e senti um aperto de angústia quando recebi alta. Os médicos recomendaram me recuperar da operação em um ambiente familiar, comendo a comidinha da mamãe e sem os riscos de pegar uma infecção - aos quais eu estava exposta enquanto permanecia no César Cals.

Ficar em casa, a princípio, foi meio ruim. A cama reclinável fez falta. Aqui, eu tinha muito mais vontade de rir, minha família tem uma veia humorística pra quem não sabe... E sorrir era algo incrivelmente doloroso. Mal começava a rir e já vinham as lágrimas. Foi observando isso que meu irmão resolveu adiantar um presente de aniversário que estava planejamento me dar. Argumentando que eu ficaria mais entretida e não teria tanta vontade de rir, ele me trouxe um notebook Semp Toshiba! Sério, eu já agradeci tanto que ele deve ter ficado enjoado... hahaha... É através do notebook que estou digitando esse post, por sinal.

A maioria do tempo fico no quarto da minha mãe, que foi adaptado para o meu retorno. Tiraram a poltrona e colocaram minha cama, encostada na parede.
Já se passou um mês desde que fui operada, e mesmo assim ainda não me deixam fazer grandes esforços. Meus gatos estão proibidos de entrar aqui :\ Tenho sofrido muito com isso, pois sou muuito apegada a eles... Mas eles soltam muitos pêlos e se algum deles vier parar na minha cicatriz, não vai ser nada bom... '-'

Dia 26 recomeçam minhas aulas na faculdade, e já fico imaginando como vai ser desagradável andar de ônibus, enfrentar fila nos terminais... Mas não posso parar. Vou tentar sair de casa mais cedo, nos horários mais tranquilos, para evitar o trânsito. Na volta pra casa, um amigo vai me trazer de moto quando puder (minha mãe vai colaborar com o combustível).
Da mesma forma, quando eu voltar pra casa do curso de francês, um amigo vai me trazer de carro, e essa é a coisa que mais comemoro, porque é um horário muito quente (meio-dia).
Por falar em calor, ultimamente tenho sentido muitas alterações térmicas. Já falaram que é por conta da anestesia geral, mas também creio que seja um efeito hormonal, já que retiraram meu útero e meus ovários...
De todo modo, sentir calor numa cidade como Fortaleza não é nenhuma novidade e isso vai ser um incômodo que vou ter que aguentar. =\

Bom, vou guardar algumas informações para o próximo post porque esse aqui já está ficando extenso.

;)

Até.

06 janeiro 2009

Era uma vez...


Era uma vez uma garotinha de cabelos castanhos claros que morava numa grande cidade em um país exótico.
Ela cresceu com muito amor da família e recebeu uma boa educação.
Desde sempre seus pais lhe aconselharam a estudar com afinco, pois o caminho mais seguro para o sucesso e a estabilidade se chamava 'conhecimento'.

Essa menina não era muito de sair, vivia em casa, pra cima e pra baixo com seu velho confidente. Suas brincadeiras favoritas se restringiam àquelas nas quais não era necessário dispensar grande esforço físico. Preferia brincar com aquelas bonecas loiras de corpos, rostos e cabelos perfeitos com sua melhor amiga. Construíam casas e histórias, quase todas registradas num pequeno caderno. Até para brincar a coisa tinha que ser bem feita.

Outro passatempo muito atraente era reunir o quarteto familiar para compartilhar estórias de terror. Em geral, os melhores contos eram os que envolviam assombração. Na verdade, os espíritos a assustavam um pouco justamente porque ela sabia que eles não eram invenção. Sim, eles eram reais e sua melhor amiga podia vê-los.

Num momento inesperado, transitório, ela teve que suportar uma mudança radical em sua vida: o lugar, o clima, as pessoas... Nada mais seria como antes.

Entre crises, amores, decepções e conquistas, ela passou a assumir publicamente sua convicção: "
Os espíritos existem e ponto".
Passou a ler e a estudar o assunto. Dúvidas foram sendo esclarecidas e, em contrapartida, outras foram surgindo.

Afinal, que certeza era aquela de que alguma doença grave a aguardava?

E que pressentimento era aquele, nos últimos dias, de que algo iria tirar sua vida dos eixos?

Ela simplesmente sentia, sem compreender por completo, sem acreditar por inteiro, mas intimamente preparada para o que quer que fosse.
Ela era espírita, e sabia que tudo,
tudo tinha uma razão de ser. O acaso era somente uma pretexto para os desavisados. E ela estava sendo muito bem avisada: por ela mesma.



(Continua...)