08 dezembro 2009

Postagem extraordinária


Me ligaram há pouco do ICC chamando para ser internada. Fiquei super assustada e não entendi nada: Ué, mas eu não tinha mais uma semana e meia pela frente? Por que ligaram tão cedo assim?

Na hora fiquei meio frustrada, afinal, pelas minhas contas, eu só seria chamada dia 20 de dezembro. Porém, por esse lado, no Natal eu ainda estaria tomando quimio. E no Reveillón eu estaria tomando as injeções, o que não seria nada divertido. E agora, com esse chamado que me pegou de surpresa, pensando bem, acho até que não foi a pior coisa do mundo. Se minhas contas estiverem certas, lá pelo dia 21 eu já terei terminado outro ciclo, e nas festas de fim de ano não estarei com nenhum sintoma, nada de vômitos ou enjoos! \o/

E precisamos ser racionais, mesmo que as emoções gostem de interferir: quanto antes terminar, melhor, né?

Agora não posso mais me demorar, tenho que arrumar minha bolsa com objetos pessoais e me mandar pro ICC.

Até breve!

07 dezembro 2009

Novo tratamento

E então, pareço a Amélie Poulin?

Oi pessoal!

Antes de começar a falar sobre meu tratamento, quero dizer que estou contente por ter voltado a escrever, já que passei a sentir novamente o carinho das pessoas e também o interesse de alguns - que eu nem conheço -, o que demonstra que a humanidade não está perdida... hehe. ^^ Ainda existem os que se preocupam e se emocionam, mesmo com desconhecidos. Isso é muito bonito, e não porque é comigo, mas porque representa um afeto sincero pelo seu semelhante. 

Humm, vocês talvez pensem, a Mara hoje tá muito emotiva. Na verdade, tô mesmo. Por tempos e tempos eu não consegui contar em detalhes minha experiência de acordar durante a cirurgia e os momentos dramáticos no hospital. Eu começava a reviver tudo, e invariavelmente meus olhos ficavam marejados. Basicamente tudo na vida é superação. Estar hoje escrevendo aqui também se trata de uma legítima volta por cima, sinto-me orgulhosa de mim mesma. =D~

Agora vamos lá (isso já tá ficando muito extenso, pra variar... ¬¬).

Eu já comecei a fazer quimioterapia de novo. Terminei no dia 29 de novembro o primeiro ciclo, de um total de três.

Só que dessa vez os ciclos e os medicamentos são diferentes, tudo mais forte. 

Pra começar, as duas primeiras sessões eu faço internada na enfermaria do ICC. Minha mãe é minha acompanhante oficial (como sempre).

No primeiro dia da internação, eu só faço um exame de sangue para verificar meus leucócitos, plaquetas, essas coisas básicas. Então, no segundo dia, começo a receber a quimio, que dura 24 horas. Eu fico todo tempo com um acesso venoso ligado a uma 'bomba' que controla o tempo de gotejamento, para terminar no tempo certo. Fiquei muito sonolenta, mas lembro que aquela bomba ficava apitando de vez em quando e enchia o saco. Cada vez que eu ia ao banheiro, minha mamis tinha que me ajudar, empurrando o aparelho onde a bomba fica presa, bem pesado, por sinal. Como mágica, meu apetite foi se acabando. Só de pensar em comer eu já ficava enjoada. O almoço era uma sobra, minha mãe se esforçava para eu dar pelo menos umas três garfadas, mas era difícil. No segundo dia, recebi uma quimio de 3 horas. De noite, voltei pra casa. Como minha imunidade estava baixíssima, eles acharam melhor eu ir pra casa a fim de evitar alguma infecção. No dia seguinte, voltei ao ICC para continuar a tomar quimio, mas não fiquei por lá, não havia necessidade (e é muito melhor ficar em casa!). Repeti as idas ao ICC até completar 6 sessões. Ou seja, me internei domingo, recebi a primeira sessão na segunda; terça à noite voltei pra casa; sábado acabaram as sessões do primeiro ciclo. E posso dizer que foi um dos piores dias, porque vomitei tanto, mas tanto, que minha garganta parecia que tinha um bolo, que dificultava a deglutição, mega inflamada. Fiquei muito mal. No domingo também vomitei demais, e fui ficando tão fraca que não conseguia nem sentar. Comer era inútil, eu sabia que ia colocar tudo pra fora.

Daí, na segunda, teve início a semana de injeções de granulokine (descobri que cada injeção custa R$ 480,00!), que aumentam a imunidade e causam dor nos músculos e nos ossos como efeito colateral. Dessa vez senti muita dor na bacia, muitos pacientes também sentem essa dor. 

Foi horrível ir ao ICC na segunda, porque eu não conseguia me manter em pé. Precisei andar de cadeira de rodas, meus pais estavam desconsolados. Os médicos viram que eu tava sem condições de continuar daquele jeito e me mandaram para a intercorrência (é tipo a emergência do ICC, para os pacientes que fazem quimioterapia lá). Tomei 3 injeções: para amenizar os vômitos, os enjoos, e para me dar mais apetite. Fiquei no soro por umas 2 horas ou mais, não lembro porque adormeci. Quando despertei, já tava bem melhor. Foi então que voltei pra casa e até consegui comer um pouco. No dia seguinte, ainda vomitei de novo pela manhã, antes de ir tomar a segunda injeção do ciclo (são sete ao todo). Mas depois desse dia não vomitei mais, foi uma maravilha!! =D

Quando finalmente concluí o ciclo, no dia 29/11 (domingo), a enfermeira me falou para aproveitar o descanso de 21 dias, que antecedem o segundo ciclo. Estou nessa fase agora, desfrutando do prazer de não precisar ir ao ICC.

Quando eu terminar este processo todo, começa uma nova fase. Mas sobre isso falo depois, porque a postagem já tá grande e tenho muitos detalhes a explicar.

Obrigada a todos pelos comentários e carinhos. Até a próxima!

PS: Meu cabelo já caiu, e tô tendo efeitos semelhantes aos da outra vez, como feridas na boca, mucosite, caroçinhos no corpo etc. Na foto acima, ainda não tinha recomeçado o tratamento e estava usando uma peruca que ganhei da minha avó. ^^


04 dezembro 2009

É, voltei mesmo



Estou de volta. 
Continuarei a contar os últimos eventos. 
Do ponto onde parei, conclui as passagens sobre o processo cirúrgico. 
Mas não contei ainda o que exatamente foi feito, né?
Pois então, vamos lá.

Os tumores das regiões anexiais direita e esquerda foram removidos, bem como a metade do meu fígado e a cicatriz umbilical. Até aí, sucesso. 
No entanto, quando fizeram a laparotomia exploradora (clicando no link, vocês verão uma explicação mais detalhada do procedimento, além de algumas figuras ilustrativas), acabaram descobrindo um novo tumor, bem próximo ao pulmão - mais especificamente na cúpula diafragmática - e não puderam remover, pois os riscos não compensavam o esforço. Daí fecharam meu abdome e mais tarde contaram a notícia para minha mãe.
Ela, sempre querendo me poupar, não comentou nada. 
Mas eu não só sentia como ainda sinto muitas dores na região (o tumor está situado entre o fígado e o pulmão) e quando fico muito tempo sentada ou faço algum esforço, sinto dores agudas no local, e achava estranho, pois na cirurgia anterior não havia sentido dor semelhante. Sem mencionar que eu tive alguns sonhos e algo me dizia que estavam escondendo alguma coisa de mim. Passei a averiguar, e foi a Swu quem acabou revelando. Logo depois minha mãe contou, porque eu teria uma consulta médica e lá ele iria citar a doença residual, não daria para continuar escondendo.
Fiquei arrasada por uns dias, mas depois recuperei a confiança. Só procurava não ficar pensando nisso e me dedicava quase que exclusivamente a jogar videogame (meu irmão me deu um Playstation 2). Nessa época compraram pra mim mais de 100 reais de jogos, e eu ficava o dia inteiro jogando Guitar Hero ou Kya - Dark Lineage. Fiquei muito viciada mesmo! xD
Finalizei vários jogos e agora eu mesma os baixo da internet, minha coleção de games tá imensa, tenho mó orgulho disso u_u. Hehehe.
Foi ótimo ter com o que passar meu tempo, os dias passavam voando e eu nem notei. 

Todos os dias vinha uma enfermeira aqui em casa para fazer os curativos do corte do dreno, demorou um bucado para cicatrizar, precisava ficar sempre limpando para não infeccionar. Foi ela quem retirou meus mais de 40 pontos, porque eu não queria ir ao hospital só pra fazer isso. As ruas estavam (e ainda estão) cheias de buracos, cada impacto do carro era um suplício, então foi muito bom poder receber uma atenção vip em casa. 

Em agosto eu tinha uma consulta marcada para revisão de cirurgia, mas nesse dia aconteceu de tudo, menos a consulta propriamente dita. 
Eu já saí de casa meio mal, mas não comentei nada (meu erro!).
Quando cheguei no anexo do HGCC minha visão estava turva, eu não conseguia focar em nada, e minha cabeça latejava tanto que parecia que ia explodir. Eu mal conseguia caminhar. Meu médico tentou conversar comigo mas eu não conseguia articular uma frase sequer, então ele achou melhor remarcar a consulta e me mandou para a emergência do César Cals. Fui de ambulância e tudo. Chegando lá, fiquei numa cadeira de rodas. Eu nunca quis tanto que o mundo acabasse como naquele dia. Acabei vomitando meu café da manhã mas não melhorei nada. A cabeça ainda queria estourar. Tomei alguns medicamentos na veia e fiquei numa maca, todos os sons pareciam estar mais agudos e com eco. Tentei dormir mas era impossível. Decidi voltar pra casa antes de tomar o último remédio (dipirona) na veia, certamente nossa casa tem maior poder de cura do que qualquer hospital.

Em casa acabei melhorando depois de dormir um pouco. E a consulta seguinte só foi acontecer dois meses depois! Tudo porque eu queria poder aproveitar minhas supostas férias com afinco. Decidimos até fazer uma viagem para selar o fim dos tempos fáceis e o começo de duras provações. Fomos para uma casa de praia, foi bem legal.

Na semana que voltei de viagem, tentei marcar a consulta, mas já estava lotado. Na semana seguinte, era feriado. Só na semana posterior foi dar certo, e recebi o encaminhamento para o ICC. Fui logo no dia seguinte, já não havia mais tempo a perder.

Na próxima postagem conto como ficou decidido meu tratamento, as novas drogas que estou tomando, as novidades dos ciclos... Enfim, tem ainda muita surpresa pra compartilhar.

Quem passar por aqui, deixe seu comentário, hein? 
(Agora tenho que recuperar meus leitores, afinal, tanto tempo sem escrever e o povo já tava achando que era o fim. Mas não, galera, voltei mesmo!)

Super abraço a todos.

Créditos da foto
Autor: Margarida
Galeria Pública Macro

03 dezembro 2009

Quem é vivo sempre aparece



Quase cinco meses se passaram desde que escrevi aqui pela última vez. Nesse tempo, por diversas vezes, me veio a vontade de excluir o blog e deixar pra lá a ideia de compartilhar os acontecimentos da minha vida. Mas algo sempre me dizia para esperar, no tempo certo eu voltaria a escrever.
Não sei se agora é o tempo certo, nesta semana fiquei ansiosa por voltar a postar mas sempre acontecia algo que me impedia, cheguei a imaginar uma conspiração contrária à minha vontade, mas sou obstinada, e aqui estou eu. Postando novamente.

Algumas pessoas ainda me viram após a cirurgia, mas a grande maioria não tem noção do que tem me acontecido, se já estou fazendo quimio, se já acabei o tratamento, o que quer que seja. De muitas pessoas eu fugi, evitei contatos próximos. Fiquei mais misantrópica que nunca, aversa a um monte de pessoas e ocasiões sociais. Não queria ver ninguém, e não vi mesmo.

Tenho muita coisa pra contar, mas não quero fazer uma postagem imensa - como de costume quando fico tempo demais ausente. Vou dividir o que tenho pra contar em pelo menos umas três postagens, para não ser tão cansativo.

Por ordem cronológica, vou falar um pouco sobre a cirurgia.
Na verdade, não apenas uma, mas duas. Isso mesmo.

Dia 07 de julho me internei e dia 08 foi feita a primeira cirurgia. Infelizmente, tive uma hemorragia interna, um vaso sanguíneo foi rompido, meu sangue estava coagulando e precisei tomar quase 5 bolsas de sangue. Foi muito frustrante quando a equipe médica me disse, a uma certa altura da noite, que precisariam me operar novamente no dia seguinte. Não senti medo, mas fiz questão de perguntar se a anestesia iria pegar. Eles garantiram que sim.

Na manhã do dia 09 de julho, lá estava eu, sendo transferida para uma maca que me levaria ao centro cirúrgico. Rapidamente capotei. Não sei quanto tempo se passou, mas acordei de repente, no meio da operação. Senti uma dor intensa no abdome e vislumbrei um pano preto posicionado de modo a cobrir minha barriga aberta. Vozes dos médicos. Pânico.
Tentei gritar, a voz não saia. Comecei a ficar desesperada, o efeito anestésico tinha passado e parece que ninguém notou que eu estava acordada.
Até que um médico começou a chamar meu nome bem alto.
"Maraysa! Maraysa!"
Só lembro que eu virava minha cabeça de um lado para o outro, relutando. Ele tentava colocar em mim uma máscara de oxigênio, mas não sei por que motivo eu tinha medo daquela máscara e não permitia que ele a encaixasse em meu rosto.
Foram alguns instantes assim, até que capotei novamente.

Quando acordei, já estava na sala de recuperação - CTI (Centro de tratamento intensivo).
Meu primeiro pensamento foi:
"Caramba, tô viva!"

Mas logo me bateu uma depressão, uma tristeza. Eu sentia muita sede, tinha duas sondas, uma na boca e outra no nariz. Aquelas mangueirinhas me sufocavam, comecei a ficar sem ar.
Veio uma enfermeira, eu implorei que ela retirasse pelo menos a sonda da boca mas ela disse que não podia. Comecei quase a fazer um escândalo, me balançando na cama, desesperada com a falta de ar até que ela se compadeceu e a removeu. Foi um alívio imenso, sou grata a esta enfermeira até hoje pelo ato de caridade... =)

Minha sede não tinha fim, sempre que vinha algum enfermeiro eu falava: "Sede... Muita sede... Preciso de água..."
Foi horrível, eu fechava os olhos e me imaginava tomando um copo de água bem gelada.
No fim, o que ganhei foi um algodão umedecido que outra alma boa passou em meus lábios. Nada mais que isso.

O desconforto da sonda começou a se fazer gritante. Eu sentia aquele caninho de silicone na minha garganta, qualquer movimento o fazia mudar de posição e doía demais. Era uma luta ficar confortável. Na verdade, eu só não sentia dor quando dormia.

E tem um detalhe que não contei! Além da cirurgia ter sido imensa, bem maior que a anterior, ainda foi feito um corte de quase cinco centímetros na lateral da minha barriga, para drenar as secreções. Eu tinha acoplado a mim um saquinho plástico, que rapidamente ficava cheio e sempre transbordava. Não sei por que cargas d'água os enfermeiros não sabiam fechar aquele saquinho direito, ele sempre vazava e todo aquele líquido avermelhado me molhava. Perdi a conta de quantas vezes precisaram trocar minhas vestes, pois elas estavam ensopadas.
Imagine uma pessoa ponteada, com uma sonda no nariz, sem mal poder se mover, tendo que ser virada de um lado para o outro enquanto os enfermeiros retiravam a colcha da cama e trocavam minha roupa. E isso se repetindo de hora em hora.

Some-se a este quadro o braço direito imobilizado por um acesso venoso por onde eu recebia soro e o esquerdo quase imóvel também por uma máquina detectora de vida com um encaixe que apertava meu dedo e apitava a qualquer desencaixe, fazendo todos os efermeiros correrem para verificar se eu tinha chegado a óbito.
Fiquei dez dias internada.
Meu corpo ficou tão inchado que foi preciso mais de dois dias até todo o líquido ser eliminado.

Foi muito mais difícil dessa vez, e o pior ainda nem contei. Mas vou contar na próxima postagem, aguardem.
Por hoje é só.

Abraço a todos.


Créditos da foto
Autor: Maria
Título: Atrás da Porta
Galeria Pública (olhares.com)