03 dezembro 2009

Quem é vivo sempre aparece



Quase cinco meses se passaram desde que escrevi aqui pela última vez. Nesse tempo, por diversas vezes, me veio a vontade de excluir o blog e deixar pra lá a ideia de compartilhar os acontecimentos da minha vida. Mas algo sempre me dizia para esperar, no tempo certo eu voltaria a escrever.
Não sei se agora é o tempo certo, nesta semana fiquei ansiosa por voltar a postar mas sempre acontecia algo que me impedia, cheguei a imaginar uma conspiração contrária à minha vontade, mas sou obstinada, e aqui estou eu. Postando novamente.

Algumas pessoas ainda me viram após a cirurgia, mas a grande maioria não tem noção do que tem me acontecido, se já estou fazendo quimio, se já acabei o tratamento, o que quer que seja. De muitas pessoas eu fugi, evitei contatos próximos. Fiquei mais misantrópica que nunca, aversa a um monte de pessoas e ocasiões sociais. Não queria ver ninguém, e não vi mesmo.

Tenho muita coisa pra contar, mas não quero fazer uma postagem imensa - como de costume quando fico tempo demais ausente. Vou dividir o que tenho pra contar em pelo menos umas três postagens, para não ser tão cansativo.

Por ordem cronológica, vou falar um pouco sobre a cirurgia.
Na verdade, não apenas uma, mas duas. Isso mesmo.

Dia 07 de julho me internei e dia 08 foi feita a primeira cirurgia. Infelizmente, tive uma hemorragia interna, um vaso sanguíneo foi rompido, meu sangue estava coagulando e precisei tomar quase 5 bolsas de sangue. Foi muito frustrante quando a equipe médica me disse, a uma certa altura da noite, que precisariam me operar novamente no dia seguinte. Não senti medo, mas fiz questão de perguntar se a anestesia iria pegar. Eles garantiram que sim.

Na manhã do dia 09 de julho, lá estava eu, sendo transferida para uma maca que me levaria ao centro cirúrgico. Rapidamente capotei. Não sei quanto tempo se passou, mas acordei de repente, no meio da operação. Senti uma dor intensa no abdome e vislumbrei um pano preto posicionado de modo a cobrir minha barriga aberta. Vozes dos médicos. Pânico.
Tentei gritar, a voz não saia. Comecei a ficar desesperada, o efeito anestésico tinha passado e parece que ninguém notou que eu estava acordada.
Até que um médico começou a chamar meu nome bem alto.
"Maraysa! Maraysa!"
Só lembro que eu virava minha cabeça de um lado para o outro, relutando. Ele tentava colocar em mim uma máscara de oxigênio, mas não sei por que motivo eu tinha medo daquela máscara e não permitia que ele a encaixasse em meu rosto.
Foram alguns instantes assim, até que capotei novamente.

Quando acordei, já estava na sala de recuperação - CTI (Centro de tratamento intensivo).
Meu primeiro pensamento foi:
"Caramba, tô viva!"

Mas logo me bateu uma depressão, uma tristeza. Eu sentia muita sede, tinha duas sondas, uma na boca e outra no nariz. Aquelas mangueirinhas me sufocavam, comecei a ficar sem ar.
Veio uma enfermeira, eu implorei que ela retirasse pelo menos a sonda da boca mas ela disse que não podia. Comecei quase a fazer um escândalo, me balançando na cama, desesperada com a falta de ar até que ela se compadeceu e a removeu. Foi um alívio imenso, sou grata a esta enfermeira até hoje pelo ato de caridade... =)

Minha sede não tinha fim, sempre que vinha algum enfermeiro eu falava: "Sede... Muita sede... Preciso de água..."
Foi horrível, eu fechava os olhos e me imaginava tomando um copo de água bem gelada.
No fim, o que ganhei foi um algodão umedecido que outra alma boa passou em meus lábios. Nada mais que isso.

O desconforto da sonda começou a se fazer gritante. Eu sentia aquele caninho de silicone na minha garganta, qualquer movimento o fazia mudar de posição e doía demais. Era uma luta ficar confortável. Na verdade, eu só não sentia dor quando dormia.

E tem um detalhe que não contei! Além da cirurgia ter sido imensa, bem maior que a anterior, ainda foi feito um corte de quase cinco centímetros na lateral da minha barriga, para drenar as secreções. Eu tinha acoplado a mim um saquinho plástico, que rapidamente ficava cheio e sempre transbordava. Não sei por que cargas d'água os enfermeiros não sabiam fechar aquele saquinho direito, ele sempre vazava e todo aquele líquido avermelhado me molhava. Perdi a conta de quantas vezes precisaram trocar minhas vestes, pois elas estavam ensopadas.
Imagine uma pessoa ponteada, com uma sonda no nariz, sem mal poder se mover, tendo que ser virada de um lado para o outro enquanto os enfermeiros retiravam a colcha da cama e trocavam minha roupa. E isso se repetindo de hora em hora.

Some-se a este quadro o braço direito imobilizado por um acesso venoso por onde eu recebia soro e o esquerdo quase imóvel também por uma máquina detectora de vida com um encaixe que apertava meu dedo e apitava a qualquer desencaixe, fazendo todos os efermeiros correrem para verificar se eu tinha chegado a óbito.
Fiquei dez dias internada.
Meu corpo ficou tão inchado que foi preciso mais de dois dias até todo o líquido ser eliminado.

Foi muito mais difícil dessa vez, e o pior ainda nem contei. Mas vou contar na próxima postagem, aguardem.
Por hoje é só.

Abraço a todos.


Créditos da foto
Autor: Maria
Título: Atrás da Porta
Galeria Pública (olhares.com)

3 comentários:

Renato disse...

Mara vc é meu xuxuu
depois de tudo isso,ficar tão bem,tão felizz...
Olha eu amo vc!
qualquer brother somos noizess

Elson disse...

Nossa Mara, realmente passou por por muitas situações difíceis, já havia imaginado isso.
Pensava muitas vezes em ir em sua casa para saber noticias suas, mas sempre senti um certo receio em ir lá, acho que foi pelo momento "misantrópica" que passa, ou passando sei lá, mesmo que só iria para saber coisas do tipo "a maraysa ainda está encanada?"
Bem sendo que estava preocupado, e a unica coisa que de fato posso fazer é esperar que acabe, e que toda ocorra bem.
Tantas coisas acontecem com boas pessoas, mas, acredto que há motivos para isso, ainda nessa semana soube que quase uma amiga desencarna, que um amigo se culpava por um ato acidental, desencarne de pessoas importantes para pessoas importantes para mim. Tudo que pude fazer é dar meu apoio, para uns foi importante o conhecimento que estou tendo do espiritismo para que assim, eles possam seguir em frente com suas vidas sem receios, de fato isso tenho que agradecer a voce, já que se não fosse por voce jamais teria ido ao centro espírita (sendo do jeito que sou não iria achar ele tão cedo...).
Mas de fato sinto falta das poucas conversas que tivemos, e espero que nessa vida que no qual temos tanto a aprender, de fato tenhamos tempo para conversar.
E espero de coração que seja o que tenha passado ou ainda passa ou ainda tenha que passar acabe logo.

Do seu amigo que só te quer o bem.

Romenum disse...

Mara, fiquei sem saber de alguns detalheszinhos, né?! mas acho que eu via no teu olhar e nas expressões que tu fazia que as coisas não estavam lá tão legais pra ti, né?! =T

Bom... lembro que tu se recuperou muito bem. Haja forças aí dentro, ein?! hehe

Te admiro, tá?!... *-*