25 janeiro 2010

A Saga... Parte 2/2 e Conflitos com o espelho

Olá pessoas! Voltei para continuar a história e também para relatar outros acontecimentos que se deram nesses 20 dias, desde que fiz a última postagem.

Como eu havia dito, a música foi minha válvula de escape enquanto estive internada, mas por pouco tempo, pois na segunda-feira (dia seguinte) voltei pra casa. A essa altura, meu corpo já estava muito fraco, eu não conseguia me alimentar direito e estava muito enjoada de água. Passei o dia inteiro deitada, sem ânimo e sem disposição para fazer qualquer coisa. Os vômitos eram constantes, eu tomei muitos remédios para tentar amenizar a crise, mas nada resolvia. E todos os dias eu ia ao ICC para tomar as injeções de granulokine, sempre fazendo um esforço hercúleo para me manter em pé. Por vezes quase desmaiei nos braços da minha mãe, de tanta fraqueza nas pernas. 

Lá pro fim da semana, parecia que eu tinha me livrado da crise de vômitos mas, mesmo assim, continuava com a salivação exagerada e sentia meu estômago sensível. Não comia muito bem e ainda não conseguia beber água. Todo tempo eu carregava comigo um limão, para cheirar quando me sentisse nauseada (geralmente resolvia). Foi então que aconteceu algo nada recomendado: peguei uma gripe!

Meu pai tinha ficado doente, mas ele nem chegava perto de mim. Depois foi meu irmão quem adoeceu,  e aí, mesmo com todos os cuidados, acabei sendo contaminada. O vírus fez a festa, afinal, meu organismo estava praticamente sem defesas. Uma gripe básica, que deveria durar uns 3 dias, me derrubou de tal maneira que demorei mais de duas semanas para me recuperar. Quase uma pneumonia. Eu tossia tanto! Minha cicatriz doía pra caramba com o impacto da tosse. Vivia saindo sangue do meu nariz quando eu assoava, meu pulmão ficou muito cheio, precisei tomar muito xarope, mel e injeção de eucalipto para ajudar no processo de recuperação. 

Natal e Réveillon passei em casa, vendo filmes. 

Em janeiro já estava curada da gripe e havia voltado a me alimentar normalmente. Aproveitando a boa fase, finalmente saí de casa. Fui ao cinema dia 06-01 assistir AVATAR, juntamente com meus irmãos. Foi incrível. Lá no Via Sul (claro, tinha que ver o filme em 3D!) encontrei meus amigos, foi bem divertido, apesar dos olhares de piedade que senti de alguns transeuntes. Mas não me incomodei tanto, afinal, é mesmo incomum ver pacientes com câncer andando por aí, o povo se comove.

Mas os bons momentos duraram pouco, pois já no dia 11 tive que me internar no ICC de novo. Teve início o 3º ciclo no qual, graças aos meus pedidos, não precisei ficar internada todos os dias, apenas os dois primeiros. 

Não foi um ciclo tão difícil no começo, mas depois ficou complicado. Dessa vez perdi 4 kg (apesar de que nem notei, foi a balança que denunciou mesmo). Achei que ia colocar meus órgãos pra fora, de tanto que vomitei. Bati recorde de idas à intercorrência, sempre tomando mais e mais remédios para aliviar os vômitos, mas nada resolvia. Presenciei meu pai quase chorando por minha causa, porque eu não queria tentar comer. Foi difícil ver aquilo, realmente não tinha vontade de ingerir nada, pois sabia que ia expelir... Mas pelo meu pai, ainda consegui ter forças e bebi meio copo de água de côco, e isso já o deixou mais aliviado. Tive que andar de cadeira de rodas, pois não conseguia ficar em pé por mais de 15 segundos. Muitos pacientes não ultrapassam o terceiro ciclo e, no entanto, eu ainda estou aqui, relatando essa experiência pra vocês. =)

Tenho muitas tonturas, desorientação, zumbidos no ouvido, lapsos de memória. Meu corpo parece um trem desgovernado, sempre apresentando reações inesperadas. De um dia para o outro surgiram em meu rosto mais de 8 espinhas. Sem contar as outras tantas em outras partes do corpo. Minha pele tá cheia de pequenas manchas escuras, principalmente na cabeça. Minha sobrancelha também é quase inexistente. 


Ao olhar no espelho, procuro traços da antiga Maraysa. Não encontro. Apesar da perda dos 4 kg, tenho outros 6 kg a mais, que deixaram minha silhueta mais redonda do que o usual. Faço expressões, caretas, tentando relembrar velhas poses. Não me reconheço mais. A falta dos cílios parece insignificante, mas ela faz uma diferença visível. Não é a falta da beleza, é a falta da personalidade. Sou uma completa estranha.

Mas não me venham com consolos, eu sei que isso vai passar. Certas coisas não serão mais como antes. Infelizmente não há nada que possa ser feito. Outras, no entanto, só dependem do tempo e de mim para que se transformem. Eu vou correr atrás, vou me esforçar. Não vai ser fácil, mas nada na minha vida tem sido fácil ultimamente, então eu sei que será apenas mais um desafio. 

Eu vou recuperar minha autoestima, eu sei que vou. 

Mas não pensem que voltarei a ser aquela Maraysa que um dia conheceram. Virá uma versão muito melhor, aguardem. ;)

E antes que apareçam nos comentários as típicas perguntas "E agora que acabou o 3º ciclo, o que vai acontecer?", peço que esperem a próxima postagem, tenho muito a lhes contar. Ok?

Grande abraço a todos!

05 janeiro 2010

A Saga do 2º Ciclo - Parte 1/2

2010. É, um novo ano começou. Início de uma nova década, ano do Tigre. 
Que seja um ano incrível para mim, para todos que estão lendo e, claro, para o nosso querido planeta água, que está tão cansado (e quente), precisando de atenção urgente. '-'
Este ano promete... E há de cumprir!


Queria ter feito uma postagem antes de 2009 acabar, contando como foi o 2º ciclo de quimio. E também fazer uma listinha das coisas que quero realizar ao longo do novo calendário. Mas não deu, eu tava sem a menor disposição pra escrever. Algumas pessoas importantes ficaram preocupadas com meu sumiço, com minha falta de notícias, e hoje recebi uma ligação que foi o estopim para que eu voltasse a atualizar o blog. Eu tinha me dado o prazo de fazer isso até o fim da semana, mas pra que deixar pra depois, se posso fazer agora, não é mesmo? Então, vamos lá.

Quando me internei na enfermaria do ICC, naquela fatídica terça-feira (08-dez-2009), imaginei que ficaria lá por três dias e depois voltaria pra casa, como da outra vez. No entanto, foi tudo diferente. Só fui receber alta na segunda-feira, dia 14. A médica me informou que seria domingo o dia da 5ª sessão, então ela não poderia me mandar pra casa, já que o 5º andar (onde eu iria fazer o resto do ciclo, indo todo dia ao hospital) não funciona aos domingos. E a enfermaria, claro, funciona todos os dias. O que eu respondi? Ué, não tenho opção mesmo. 

Fiquei lá por 7 dias, e vocês não fazem ideia do quanto foi ruim.



Primeiro, o óbvio: tédio total.
Como fico todo tempo com um acesso venoso, não dá pra fazer praticamente nada. Lá tem uma pequena TV, em um suporte na parede, que fica voltada para as duas camas do lado oposto ao que fico, ou seja, só escuto a programação, não a vejo. T.T E a programação geralmente é uma droga. Pra ler é meio desconfortável, ainda faço umas tentativas, mas é complicado porque só posso ficar deitada do mesmo jeito, a fim de evitar ficar por cima do braço que está com o acesso (ele de novo!). Eu sempre levo meu diário, mas só escrevo nele no primeiro dia, enquanto ainda não tô com o soro. Para ir ao banheiro, minha mãe sempre tem que ir comigo. E, tipo assim, vou MUITAS vezes ao banheiro. Nos medicamentos tem diurético e otras cositas más. Tomar banho é um ato que também exige um certo desgaste. Não aguento ficar em pé muito tempo, é bem chato, mas não entrarei em detalhes. /shy/

Segundo, o inesperado: uma paciente irritante. 
Na cama ao lado da minha, tinha uma mulher que resmungava, vomitava, reclamava, brigava com as pessoas TODO O TEMPO. Ela tinha muita sede, ficava pedindo água de cinco em cinco minutos, e bastava beber para em seguida colocar pra fora. Ela mal ficava em pé, durante muitos dias só a vi levantar 3 vezes, e com a ajuda de 2 pessoas. No entanto, ela queria porque queria ir pra casa. Brigou com uns médicos, dizia que estava bem, mas quando eles davam as costas, ela começava a se queixar de dores. Com a mãe dela, vixe maria, era briga a todo instante. Evidentemente ela não estava bem para receber alta, mas ficava resmungando de hora em hora: Mãe, quero ir pra casa, mãe me tira daqui. Eu quero ver meus filhos. Ah!! Eu quero ir embora. Eu vou m'embora, de amanhã não passa. 
E a mãe dela não conseguia lidar com isso, começava a dizer que ia deixá-la sozinha e não sei mais o quê. 
Eu tava muito enjoada, sem apetite, com náuseas, e tendo que aturar a televisão ligada, a luz na minha cara (porque tinha uma outra paciente, idosa, que recebia atenção redobrada e deixavam a luz do leito dela sempre acesa durante a noite), os resmungos infantis da paciente ao meu lado (e tipo, uma mulher adulta, sabe? Sem noção, tava muito irritante)... Foi hard!

E a comida do ICC, para os pacientes, é horrível. Comida sem sabor, fria. Um cardápio duvidoso, uns peixes estranhos (argh!), umas saladas esquisitas. Minha mãe gastou uma nota indo todo tempo à cantina para tentar arranjar algo que eu tinha vontade de comer. E depois que meu apetite sumiu por completo, veio a fraqueza. O soro era a única coisa que me sustentava. 
E, como se não bastasse o medicamento na veia, ainda precisava tomar dois enormes comprimidos mal cheirosos por dia (parece incrível, mas isso era o que eu mais odiava). Quando meu estômago e meu fígado estavam mais sensíveis, era certo que eu vomitaria os comprimidos. Aí, a enfermeira me dava uma injeção para evitar o vômito, e depois eu tinha que tentar novamente, sabendo que não existia a opção de não tomar*. O problema é que essas injeções anti-vômito me causavam palpitação e impaciência. Minhas pernas ficavam inquietas, eu não achava uma posição boa na cama, e por três noites seguidas eu fiquei sem dormir. Durante o dia era difícil conseguir recuperar o sono, por tudo que já citei. 

Minha mãe insistia para que eu ouvisse música, mas não sei porque, eu não sentia vontade, era como um mártir optando pelo sofrimento. Daí, acho que foi no sábado ou no domingo, quando eu já tava sem aguentar, resolvi pedir o CD player (só por pedir, pra não dizerem que não tentei). E, como um bálsamo, a música me acalmou, parei de ouvir a voz da paciente, as vozes da novela e tudo foi ficando melhor. Não sei de onde eu tiraria forças para suportar continuar ali se não fosse a música.

E essa postagem já está maior do que planejei... Continuo a saga do 2º ciclo na próxima.

Inté!



*Tenho que tomar esses comprimidos que odeio pelo seguinte motivo: uma das drogas que está na minha Qt é a Ifosfamida, e ela ataca a bexiga. Então, as pílulas de Mesna (esse é o nome do bendito remédio) servem justamente para evitar que minha bexiga sofra danos colaterais, como sangramentos. Não dá pra fugir. =T