18 junho 2012

Confesso


Como muitos devem saber, acredito na Vida após a Morte. Passei por diversas experiências que apenas confirmaram minha intuição de que esta existência é apenas uma passagem. Acredito que somos espíritos eternos e que estamos aqui para colher os frutos que plantamos, nesta encarnação e nas anteriores. 

Gosto muitíssimo de uma citação de Pietro Ubaldi que diz que "a semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória"*, e procuro praticar o bem em todas as ocasiões. Quando decidi que precisava mudar meu jeito de ser, cheguei a pensar que só com essa atitude eu já tinha conseguido dar um salto incrível em minha caminhada espiritual. Foi então que passei a agir como uma moralista, amontoando decepções e recolhendo frustrações por onde eu andava. Eu não entendia por que as pessoas não queriam mudar também, mesmo estando repletas de vícios.

Parecia que o mundo inteiro estava cego e só eu conseguia enxergar o absurdo em que todos viviam submersos. Eu era uma sofredora, porque não bastava lutar contra meus próprios erros, eu tinha que lidar com os erros de todos os demais. Eu jurava que era uma missionária semeando a luz, mas todos me enxergavam como uma chata. 

Sim, eu era muito chata, hoje sou capaz de reconhecer. Eu não perdia uma oportunidade para argumentar, para convencer a todos de que era necessário se reformar. Porém, num certo dia, eu tropecei, caí num poço de lama, e percebi que não tinha aprendido nada. 

Cair é um verbo a que todos estão vulneráveis. A queda não foi o problema, mas sim o que pude visualizar enquanto afundava. Enxerguei meu ego do tamanho de um trem, e me envergonhei por ter sido tão imatura. Ninguém pode mudar tão rápido, abandonar do dia para a noite todos os seus velhos hábitos - como se eles nunca tivessem existido ou como se eles não fossem tão persistentes e traiçoeiros que podem se ausentar por meses, mas então reaparecem, firmes como outrora. E ninguém tem essa capacidade de mudar o outro, ainda que esse outro aceite mudar, porque a mudança é algo que vem de dentro pra fora, não o contrário. Pior é que eu queria transformar o comportamento daqueles que sequer percebiam que era preciso mudar alguma coisa em si mesmos. Com minha insistência e arrogância, a única coisa que obtia era o efeito reverso de tudo que eu almejava. 

Eu aprendi tanto nessa minha queda, que até poderia escrever um livro (quem sabe um dia). Mas o primordial é que eu continuo aprendendo. Nada está terminado e ainda falta TANTO para eu sentir que já posso desencarnar em paz! Depois da tempestade, ficou a sensação de que aquela desordem me foi muito útil e eu ainda tenho feito bom proveito dela. Como agora, em que estou relembrando e revivendo cada pensamento com a certeza de que mal dei os primeiros passos para uma verdadeira evolução. 

Não é nada fácil ter disciplina, paciência, humildade, benevolência... Mas nossa vontade é soberana e se realmente queremos ser melhores, ainda que com dificuldades notáveis, iremos conseguir. É um passo de cada vez, progressivamente. Não devemos propor que alguém faça essa escolha, cada um tem seu tempo.

Para finalizar, deixo mais algumas palavras de Ubaldi*, que muito me inspiram:

Quem faz o bem o faz a si mesmo e quem faz o mal a si mesmo o faz. Comecemos tendo a boa vontade de fazê-lo. Não procuremos justificar nossa preguiça, dizendo que essa subida é muito difícil; nem escapar às nossas responsabilidades, jogando a culpa sobre os outros. Principiemos cultivando nossas virtudes, e não exigindo-as do próximo. Procuremos amá-lo, ao invés de importuná-lo, salientando-lhe os defeitos. E não lhe peçamos que faça os sacrifícios e esforços que achamos demais árduos para nós.



*Trechos extraídos do livro A Lei de Deus - Pietro Ubaldi. Este livro pode ser obtido gratuitamente através deste link (clique para baixar o arquivo em pdf).

16 junho 2012

Da série dos não ditos


Dia desses eu estava andando num coletivo e havia uma mulher de longos cabelos pretos sentada ao meu lado. Ela olhava fixamente pela janela, absorta em seu mundo particular. Eu ouvia alguma música em meu tocador de mp3 e também estava envolvida com meu próprio universo. Até então, nenhuma novidade.

De repente, os fios negros da senhorita começaram a fazer cócegas em meu braço. Eles dançavam sobre minha pele, causando uma sensação de coceira. Quem já passou por isso vai lembrar como é, e não é nada agradável.

Eu tentei me acomodar de um jeito diferente, de modo a não mais sentir aqueles fios enormes sapateando insistentemente sobre meu braço, mas não deu. Os fios sempre me alcançavam!

Comecei a formular a frase ideal, a maneira mais educada para lhe informar da situação:

- Moça, desculpe incomodar, mas é que seu cabelo está batendo em meu braço e.... 

Não, não está bom.

- Moça, por favor, a senhora poderia prender seu cabelo? O vento está fazendo com que os fios me chicoteiem e... 

Nada a ver!

- Err... Querida, seu cabelo é enorme, hein? Eu também já tive o cabelo grande, mas quando eu andava de ônibus, sempre o prendia, porque é muito deselegante submeter as pessoas que se sentam ao nosso lado a esse tipo de coisa e... 

Fala sério, eu não sei o que dizer a essa criatura! 

Inconformada com minha incapacidade de expressão, observei que chegara à minha parada. 
Peraí, motorista, vou descer!

Desci feliz da vida. Ainda bem que me mantive calada, afinal, quando não sabemos o que falar, o melhor mesmo é nada dizer. E embora o incômodo tenha sido real, pelo menos ele me deu uma ideia de postagem. ;)

Por favor, pessoas com cabelão, respeitem os braços alheios!