25 agosto 2013

O que dizer a pessoas doentes

Oi Amigos!

Há muito tempo eu vinha pensando em fazer uma postagem como a que farei hoje, mas sempre surgia outro assunto e acabei adiando.

Como vocês sabem, sou uma sobrevivente. Venci um câncer agressivo e hoje não tem quem olhe pra mim e imagine o que já passei (as únicas marcas aparentes são as cicatrizes na barriga). É sempre um susto quando, em raros momentos, comento com alguém. Chega a ser interessante observar as reações. Coisas que já ouvi: 

- Nossa, mas tão nova?

- Não pode mais ter filhos? Mas vai adotar, né?

- E hoje tá tudo bem com sua saúde? Tem certeza? Não corre nenhum risco, né?

- Preciso contar sua história para um amigo, ele tá precisando ter mais fé. 

Entre outras. 

Eu fico muito satisfeita quando percebo que o que passei tem utilidade para outras pessoas. Isso é muito gratificante! Alguns dias atrás eu me vi com vontade de reler postagens antigas, da tag Quimioterapia. Me surpreendi quando encontrei detalhes que eu jamais lembraria se não os tivesse anotado. E um post em particular me fez recordar que tem muita gente que, apesar da boa vontade, não faz a menor ideia de como lidar com um enfermo. Como não existem coincidências, nessa semana eu li um artigo na revista Seleções de julho/2013 que falava justamente sobre o apoio inteligente. Perfeito! Por isso estou aqui, quero esclarecer alguns pontos quanto ao estado psicológico de um doente e enumerar coisas que você jamais deve dizer a ele. 

NUNCA DIGA A UM DOENTE:

"Você está ótimo!"
Apesar da sua boa intenção, essa afirmativa significa o mesmo que "nem parece que você está doente". Meus caros, isso pode ser muito difícil de ouvir, porque acaba invalidando a dor de quem sofre. E se você afirma que a pessoa não parece sofrer, então ela não está tão mal assim ou, pior, está fingindo. Dica de ouro: não comente sobre a aparência do enfermo. Exceto quando você notar que ele precisa de um elogio, como quando eu melhorava dos efeitos da quimio e tinha vontade de me arrumar, passar maquiagem, até peruca eu usei algumas vezes. Nessas horas, SIM, eu queria que dissessem que eu estava bonita. Minha autoestima batia no pé, e eu havia me esforçado para parecer melhor. Mas quando estava realmente sofrendo, com dores, vômitos, eu iria detestar que alguém dissesse que eu estava ótima, porque era evidente que a pessoa não tinha o menor senso de observação.

"Pelo menos você pode aproveitar essas férias..." 
Ficar indo ao hospital todos os dias não tem nada de divertido. A rotina de um doente não passa nem perto do que se pode chamar de férias. Chegaram a me dizer isso e na hora eu apenas sorri. A pessoa queria que eu enxergasse algo de bom naquilo tudo, quase faltou afirmar que queria estar no meu lugar só para poder ter uma folga de tanto trabalho. Garanto que essa afirmação não teve nada de verdadeiro. Impossível alguém querer estar no lugar de um paciente oncológico ou que padece de doença crônica (como os hemofílicos), só mesmo quem adoeceu ou foi acompanhante de um paciente sabe o quanto é desgastante. O tempo que sobra é mínimo, porque o outro dia começa e a rotina não tem prazo para terminar. Não fale isso para um amigo doente, por favor. Ele pode estar deprimido com muitas contas (minha família gastou tubos de dinheiro com corridas de táxi e exames.) e se sentindo péssimo por não ter disposição para fazer algo que gostaria, como ler um livro ou ver um filme. O cansaço, os sintomas das dores, as preocupações... Nada disso faz a mente relaxar.  

"Você deve ter adoecido por causa do estresse. Tente ser mais tranquilo que você vai melhorar." 
Meu pai me disse isso logo que recebemos o diagnóstico. Vocês lembram como era minha rotina (faculdade, dois cursos de idiomas, núcleo de pesquisa em comunicação, morando longe de tudo, chegando em casa mais de meia-noite e acordando às 5h30 quase todos os dias), realmente era bem puxada. Mas eu ainda encontrava tempo para ver os amigos e dormia bastante no final de semana para recuperar o sono acumulado. Os tumores que cresceram em meus ovários foram o resultado de má formação celular, não tinha relação alguma com meu estado emocional. Vários oncologistas me disseram a mesma coisa. Nem mesmo com prevenção ginecológica eu poderia ter evitado, porque o teratoma cresceu dentro de 15 dias e duvido que alguém vá ao médico toda semana, só para procurar doenças. Portanto, não foi o estresse. Claro que ele pode agravar enfermidades, isso é um fato, mas muito dificilmente ele vai ser a causa principal. Falar isso para um doente faz parecer que ele é o grande culpado, o que pode torná-lo deprimido ou, sim, muito estressado! 

"Agora já passou. Vamos falar de outras coisas."
Recebi algumas visitas de pessoas que me disseram isso. Perguntavam como eu estava, queriam saber detalhes de como tudo ocorreu, e quando eu começava a falar me interrompiam, dizendo que eram águas passadas, que eu devia esquecer. Se não aguenta, nem começa, baby. Eu não tinha muitos assuntos novos, apenas o que vivia diariamente, que era a minha rotina no Instituto do Câncer. No máximo eu poderia falar sobre outros pacientes, mas seria sempre a mesma temática. Um dos motivos de eu não gostar de receber visitas era esse. Ninguém sabia lidar comigo, todos vinham cheios de dedos, mas faziam verdadeiras catástrofes com as palavras, me deixando mentalmente exausta. A pouca energia que eu tinha ia embora com os visitantes. É estranho, mas os doentes sentem uma certa necessidade de falar sobre o que estão passando. Tudo é muito novo, muito assustador. É terapêutico conversar, chorar, mostrar medo... Por isso existem psicólogos, eles não te julgam quando você quer falar sobre um assunto que ninguém deseja ouvir. E para isso deveriam existir os amigos também, e muitos deles eu espero que leiam essa postagem, para não cometerem velhos erros que cometeram comigo. 

SUGESTÕES DO QUE DIZER A UM DOENTE:

"Não sei o que dizer, não faço ideia do que você está passando."
No meu grupo de amigos, apenas eu passei por um grave problema de saúde (graças a Deus!). Se algum amigo chegasse para me dizer que sabia o que eu tava sentindo, não seria 100% honesto, pois nenhum deles, de fato, tinha ideia do quanto eu sofria. Muito do que sofri eu nem demonstrei, guardei para mim, porque queria poupar minha mãe, que estava SEMPRE comigo. O melhor que eu já ouvi foi exatamente isso: "não sei o que dizer, Mara. Mas estou aqui para o que você precisar." E não apenas foi dito como foi feito, porque falar coisas bonitas muitos falaram, mas na hora de fazer a coisa mudava. Qualquer doente gosta de se sentir amparado. É tudo que ele precisa, de alguém que demonstre que está lá para o que der e vier. 

"Se precisar chorar, eu tenho lenços." 
Jamais interrompa as lágrimas de um enfermo, que na maior parte das vezes fica reprimindo seu choro. Deixe-o livre para expressar seus sentimentos, pois quase ninguém lhe permite demonstrar tristeza, com medo de que ele caia em depressão. No meu caso, para conseguir chorar em paz, eu cobria meu rosto com o lençol e tentava não fazer nenhum barulho. Geralmente era de madrugada que eu fazia isso, colocava para fora todas as minhas angústias, lavava minha alma. Depois, eu podia muito bem ouvir uma música leve, que me enchia de esperanças. Mas o choro tinha que sair, era impossível contê-lo. 
Se você quer ajudar alguém, não lhe diga para não chorar. Não comente sobre as lágrimas que caem, porque isso pode constranger o enfermo. Apenas abrace, entregue um lenço, e se sentir vontade, chore junto. O pranto não dura pra sempre. O sorriso pode ser a próxima etapa, acredite.

"Vou ao mercado, quer que eu traga algo? "
Essa sugestão veio exclusivamente da revista Seleções, pois nem tinha me passado pela cabeça. Fui muito abençoada por não precisar me preocupar com nada além da minha saúde, os outros setores eram cuidados pela família, me pouparam sempre que foi possível. Mas existem enfermos que moram sozinhos ou que moram com idosos/crianças, e aí? Não dá pra sobrecarregar um idoso de todas as atividades que, antes, era o adulto da casa quem cuidava. Nesse contexto, é muito gentil oferecer ajuda, seja para trazer produtos do mercado, pagar uma conta, comprar alguma coisa no shopping. Avise sempre que sair, com uma certa antecedência para que o seu amigo possa fazer uma listinha. Não torne a situação desagradável fazendo o parecer ainda mais necessitado. Aja naturalmente, como você faz com qualquer pessoa em perfeitas condições de saúde. E outra dica: ao invés de oferecer ajuda genérica, fale diretamente. Assim: vou ao banco essa semana, posso aproveitar e levar suas contas para pagar. Onde você as guarda? Ou ainda: vou ao mercado, já trouxe até o papel para anotar a lista do que você está precisando.
E não assim: olha, do que você precisar, pode me ligar, ok? - Desse jeito parece mecânico, não soa como sincero. Ainda que seja. Entenda, o modo de falar é fundamental. Lembre-se sempre disso. 

O amor se expressa através de atitudes. =)