21 novembro 2014

Um dia na prisão


Tive sorte, não fui revistada - sequer pediram para ver minha identidade.
Caminhei com os outros quatro samaritanos, um pouco apreensiva com o que iria encontrar. 

Alguns homens me olharam de cima a baixo, com curiosidade. Demorei alguns minutos para ficar à vontade, e tive de lutar com meus pensamentos insanos, que me faziam ver algum deles me fazendo de refém. Que tipo de mente doentia é a minha, ao me permitir pensar algo assim? A mente de alguém que nunca imaginou visitar um presídio, a mente de alguém que estava receosa, quase faltou à visita, e mesmo com um monte de imagens distorcidas, preferiu pagar pra ver, do que ficar especulando. Em algum momento é preciso sair da zona de conforto, afinal.

Em meio a tantas faces, paredes sujas, cheiro de cigarro, tatuagens de guerra, me vi muito perto de pessoas que sempre busquei evitar. Ladrões, homicidas, estupradores... Pouco importa o delito que cometeram. Para nós, samaritanos, eles são todos "reeducandos". Já estão sendo julgados pela Lei dos homens, não precisam de mais julgamentos. O nosso trabalho ali é levar música, palavras de consolo, uma breve dose do Evangelho segundo o espiritismo, com seus ensinamentos edificantes, e a sopa fraterna, feita com vegetais, carne de soja, legumes e muito amor. Na hora da sopa, todos se enfileiram com suas canecas, alguns tomam bem rápido, para dar tempo de repetir. 

Na ala feminina haviam apenas duas reeducandas, muito diferente do cenário anterior, repleto de rapazes com olhares distantes, alguns muitíssimo jovens - para aumentar o aperto no peito.

Avistei muitas frases no muro branco, todas escritas com a mesma tinta verde musgo, com a mesma letra. Gravei duas daquelas mensagens, que muito me tocaram e me fizeram viver aquele contexto de um modo que nem pensei que conseguiria. Senti perfeitamente como era a vida ali. Senti na pele o desespero pela liberdade e compreendi que é possível mudar, mesmo sendo um ambiente hostil, é possível encontrar resignação e um caminho novo.     

"Sem o esforço da busca, é impossível alguém sentir a alegria do encontro."

"Por onde passei, não vou mais voltar. A começar por aqui."


Memorizei e depois anotei essas duas passagens, porque me tocaram de verdade. Queria escrever sobre isso aqui, mas me sinto incapaz de expressar tudo que passei naquela manhã de domingo. Foi algo que palavra alguma é capaz de traduzir - e mesmo assim eu ainda tento. Não quero e não posso esquecer, foi uma lição que levarei sempre comigo.
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Essa visita que fiz ao presídio é uma atividade que ocorre há mais de 18 anos por trabalhadores voluntários (Samaritanos) da Casa do Caminho - célula espírita vinculada ao CEJE - Centro Espírita que frequento. Ocorreu no dia 16 de novembro de 2014.
Não houve revista porque os agentes penitenciários já conhecem a equipe e nos deixaram passar tranquilamente. Esse presídio se encontra no interior do CE, não vou citar a cidade por uma questão de segurança.  

Um comentário:

Unknown disse...

Essas frases que você memorizou são incríveis, realmente tocantes. Te ver fazendo esses trabalho é muito inspirador, sua vida está rodeada de sentido.